segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Entrevista realisada para o livro "Sena Pernambucana"

Leidson Ferraz: Como é que vocês lidam com a critica?Fernando de Oliveira: Veja como empobrecemos nessa área! Já existiu no Recife a Associação dos Cronistas Teatrais de Pernambuco, fundada em junho de 1955. Eram mais de vinte sócios. E quando aparecia uma nova peça em cartaz essa peça era dissecada por todos. Hoje quase não temos espaço nos jornais.Reinaldo de Oliveira:Sempre respeitamos a critica.Isso foi algo que nosso pai nos ensinou. Claro que enfrentamos polemizadores, tivemos algumas ofensas, e é sempre bom ter o devido controle para não ir alem do que se deve ir. A Crítica construída é uma beleza. O próprio nome indica. Mas aquela que nasce de sentimentos menos grandiosos essas aí, a gente desconhecer. Por isso continuamos seguindo em frente desde 1941.Fernando Oliveira: Nosso espetáculos podem até não agradar como antigamente, mas continuaremos com a mesma filosofia principio que sempre nortearam o teatro de Amadores de Pernambuco: respeitar religiosamente o autor de cada uma de nossas peças e não admitir nunca que o nosso elenco não continue a ser de verdadeiros amadores, ou seja, todos aqueles que se dedicam a uma arte sem dela usufruir financeiramente.
Elaney Acioly: E como está o Teatro de Amadores de Pernambuco hoje?Reinaldo de Oliveira: Não podemos mais dispor de uma equipe como antigamente quando não havia nem televisão nem tanto grupo atuado. Dos anos de 1940 a 1960 fazer teatro era o lazer de muitos. Hoje em dia, quase todos os intérpretes têm outros espetáculos pra fazer, trabalham ou estudam a noite. O próprio Teatro Valdemar de Oliveira, para que se já mantido, precisa ser alugado a outros grupos. Ou seja, o teatro de Amadores não pode mais fazer quatro, cinco montagens diferentes a cada ano. Fazemos uma, duas no máximo, e co o carro-chefe sempre á frente, Um sábado em 30. Mesmo assim é difícil reunirmos as vinte e duas pessoas do elenco num mesmo ensaio. Esse é o trigésimo ano da montagem. E durante todo esse tempo, levamos a peça com as modificações que o destino impôs pelas mortes, de vários intérpretes do elenco original. Na verdade desde do dia 08 de julho de 1963, resta apenas Reinaldo de Oliveira que insiste em fazer o papel do Chico, personagem que era novinho saliente na época, e que agora já estar de cabelo branco. Maria Paula e Stella Rabelo serão responsáveis pelo remonte das personagens Sá Nana e Quitéria, que eram vividas respectivamente, por mamãe e Vicentina do Amaral. Mas estamos mantendo a direção original de Valdemar de Oliveira. O diferencial é que, agora estamos adotando certas duplicidades: dois atores dividindo a mesma personagem. Isso porque o teatro de Amadores de Pernambuco adotou um sistema muito curioso desde que levamos em cena Solteira e que eu não fico, um sucesso de público. O elenco Havia sido classificado no voluntariado e tínhamos dezenas de pessoas para contemplar numa peça com poucos personagens. Surgiu então, a idéia de se fazer o espetáculo alternando dois elencos e até revezando atores entre eles. O mesmo aconteceu nos papéis principais de Bob & Bobete. Bob,numa noite era vivido por Alberto Brigadeiro; noutra, era vez de André Ricardo[André Riccari];tipos completamente diferentes. Isso foi uma experiência curiosíssima para mim como diretor e para eles como intérpretes. Pelo menos pôs abaixo a idéia de que não se pode misturar com o elenco.
Elaney Acioly: O TAP sofreu algum tipo de patrulhamento ideológico?Reinaldo de Oliveira: Como papai sempre quis, o TAP nunca se meteu em política porque quando um grupo se envolve e os rumos do país mudam, tudo se acaba. Vários grupos passaram por isso. Geninha da Rosa Borges: Diziam até que éramos um grupo alienado. E acredito que essa é uma das razões de certo desprezo da classe artística pra conosco, porque sempre nos consideraram um elenco de elite.
Elaney Acioly: Quando surgiu a idéia de se construir o Teatro Valdemar de Oliveira ?Reinaldo de Oliveira: Inauguramos nossa própria casa de espetáculos em 23 de maio de 1971, então chamada de Nosso Teatro, desejo de papai desde os tempo do Grupo Gente Nossa. Essa foi a maior realização, sem sombra de dúvida. Desde lançamento do Grupo, em 1941, o Santa Izabel era nossa sede, porque papai foi diretor do teatro de 1939 a 1950. Nos anos seguintes, Alfredo de Oliveira o substituiu. Mas em 1960, com o Governo Arraes no Poder, o cargo passou a ser de Joacir Castro, um dos fundadores do MCP, grupo que não via com bons olhos, principalmente porque papai nunca levantou bandeiras à esquerda, pelo contrário. O TAP, então foi posto pra fora do Santa Izabel. Aqueles foram anos difíceis, porque nada foi possível conseguir. Arranjar pauta, então cada vez mais complicado! Para vocês terem idéia, em 1968, quando papai desejou montar a comédia policial Oito mulheres, de Robert Thomas, a peça teve que ser apresentada no teatro do colégio das Damas, único espaço possível naquele momento. Pois bem, nessa luta por um teatro próprio, somente dezesseis anos depois da iniciada a campanha, à custa da ajuda de muitos amigos, o Nosso Teatro foi inaugurado, e a parti daí as rendas dos espetáculos voltaram- se para sua manutenção. Mas nunca deixamos de destinar uma parte do dinheiro para instituições beneficentes. Quando Papai faleceu em 1977, mudamos o nome do teatro para Valdemar de Oliveira. Em 19 de outubro de 1980 ocorreu uma tragédia: um incêndio praticamente o destruiu, mas sua restauração se deu nos 2 anos seguintes, novamente após uma árdua luta.
Silvana Menezes: O que para vocês, caracteriza ser amador no teatro?Reinaldo Oliveira: Primeiro, o idealismo, o amor pelo qual fazemos teatro; segundo, a verdade absoluta de que nenhum centavo recebemos. Por isso estamos existindo desde de 1941. Porém, o profissionalismo que é abraçado por alguns dos nossos em oportunidades com outros grupos, é visto com a maior grandeza. Apenas todos têm a plena consciência dw que quando retornam ao nosso elenco, reassumem a condição de idealismo, de amadores na mais pura acepção da palavra.Fernando Oliveira:Essa é uma filosofia de trabalho que vem desde o Gente Nossa, porque nem Samuel nem papai nunca receberam dinheiro algum pela participação deles no grupo.Elaney Acioly: Algum fracasso no TAP?Fernando de Oliveira: É preciso analisar as razões que levam uma peça a sair de cartaz. Eu diria que o TAP nunca teve intimidade com o fracasso.
Elaney Acioly: E quanto a um sábado em 30, Luiz Marinho? Como surgiu esse marco do teatro Pernambucano?Fernando Oliveira: Um sábado em 30 estreou em 1963 e conquistou o prêmio Samuel Campelo de melhor espetáculo do ano pela ACTP. A partir de então, excursionou por quase todas as principais cidades do Brasil. E digo mais: é uma peça que não conhece o que é ser representada para meia casa. No Rio, por exemplo, tivemos que dar duas récitas seguidas no último dia de apresentação.Reinaldo de Oliveira: Em sábado em 30 foi levado durante 29 anos ininterruptamente. Todo ano cumprido apresentações, por um dois ou três meses. Paramos somente em 1992 quando Vicentina do Amaral e Romildo Halliday já havia falecido, e mamãe adoeceu, ficando impossibilitada de atuar.
Elaney Acioly: Como é que o TAP conseguia viajar pelo Brasil com tantas pessoas ?Reinaldo de Oliveira: Tudo isso era elaborado com muita antecipação, principalmente para conciliarmos as férias de trabalho de tanta gente. E aproveitamos para levar de quatro a cinco peças do nosso repertório, em temporadas que chegasse a durar um mês. No total realizamos mais de cinqüenta excursões a mais de vinte cidades brasileiras.
Elaney Acioly: Dá para ver que desde seu surgimento em 1941, o teatro de Amadores foi realmente um palco de aprendizado para a arte?Fernando de Oliveira: Isso numa época em que nem se cogitava a criação de um curso de arte dramática na Escola de Belas Artes. Então, pode – se dizer que o TAP formou muita gente que, hoje inclusive, atua como profissional. Um exemplo é Sebastião Vasconcelos que hoje é ator extraordinário, já alguns ano na TV Globo. Detalhe curioso é que ele, quando atuava nos nossos elencos, chegou a assinar como Paulo Alcântara, temendo a reação do pai.
Elaney Acioly: Como doutor Valdemar escolhia o repertório ?Reinaldo de Oliveira: Papai lia muito sobre grandes espetáculos do mundo e costumava se dirigir à Sbat-Sociedade Brasileira dos Autores Teatrais- em busca de uma copia do texto. Se ele se agradasse do original, reunia todo o grupo para Uma leitura mais nunca impôs nada.
Elaney Acioly: Eu gostaria que vocês explicassem por que o doutor Valdemar era considerado o homem dos sete instrumentos?Reinaldo de Oliveira: Embora ele só tocasse um, e muito bem, o piano. Mas Valdemar de Oliveira era assim chamado, porque exercia várias funções: médico, especializado em Saúde Pública; advogado, jornalista, professor, escritos, compósitos, autor teatral, diretor,ator, além de ter sido um pai de família exemplar.Mas sem dúvida alguma, de todas essas atividades, a arte era o seu maior instrumento. Mas, sem dúvida alguma, de todas essas atividades, a arte era seu maior instrumento. Desde de cedo, nele despertou uma grande paixão pela música e pelo teatro. Sua primeira opereta composta, Berenice, foi levada à cena em 1923, no teatro de Santa Izabel, reunindo cem amadores da alta sociedade recifense e, acreditem, com mais de cinco horas de duração. Mesmo assim, um sucesso. Foi nessa época que papai conheceu o extraordinário teatrólogo Samuel Campelo que convidou para entregar no grupo gente Nossa, cuja a sede era no Teatro Santa Izabel. Teatro dos Amadores de Pernambuco nasceu como um departamento autônomo do grupo Gente Nossa, com a morte de Samuel surgiu a idéia de um novo grupo de teatro, e quando papai foi convidado pelo doutor Octavio de Freitas a realizar uma noite de arte que rendesse algo para o novo prédio de medicina e o encerramento das festividades do centenário da instituição. Ai papai resolveu fazer uma representação teatral enfrentando o preconceito reunindo um elenco somente com médicos e suas esposas. Assim nasceu o Teatro dos Amadores de Pernambuco.

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